domingo, 26 de dezembro de 2010

O mundo fechado



O guarda deu a volta à chave e disse-lhe: “Amigo, tenha um bom dia!”

Ironicamente, João é claustrofóbico. Estar encerrado sempre foi para ele um grave problema. E aquelas quatro paredes, aquela jaula vai-lhe dar cabo das já fracas estruturas mentais.

As paredes nem brancas são, já foram, agora são sujas… Uma cama, também ela encardida. Tudo naquele lugar está conspurcado, a sujidade que se entranhou no seu corpo, no seu espírito e suja tudo o que enxerga, o que toca…

Também o cheiro é mau: a medo misturado com humidade, a solidão de mãos dadas com a penumbra. É um cheiro fechado, triste, insuportável, que se entranhou naquele espaço, se instalou e não sairá nunca. É um quadrado viciado, vicioso, doloroso. Cheira a algo muito seu conhecido: cheira a impotência, a ratoeira, a dependência, à própria decadência, a loucura à solta mas condicionada pelos quatro cantos desta espelunca.

Começa a suar e a sentir que o pânico está a controlá-lo, a cabeça lateja forte. Tal como quando era pequeno e a mãe o fechava na despensa para o castigar. Castigos por tudo e por nada, pelos mais pequenos nadas…

A vida é um castigo constante, ele sabe, nunca foi outra coisa. Mas o maior castigo é mesmo saber que está e estará ali fechado, sem poder dar a volta ao assunto. Como não pode dar a volta à chave e fugir. O guarda é quem tem a chave da cela, como outrora era a mãe que guardava a chave da despensa. Só ele nunca há-de ter a chave de coisa alguma…

Só sabe que existe mundo porque a cela tem uma janela que dá para outra divisão. Nem sequer vislumbra se é dia lá fora. Para ele é sempre aquela luz duma lâmpada forte…

Começa a sentir que não consegue controlar a tensão que tem acumulada, começa a andar de um lado para o outro, cinco passos para a frente, volta, cinco passos para trás, volta, começa a acelerar, a acelerar os passos, por fora, a acelerar as pulsações, algo a crescer lá dentro, a endoidecer!

Como vai aguentar tantos anos que tem pela frente, ali, fechado? Tudo menos inactivo e fechado.

Activo e castigado, sim, é ele!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sentir



Deleite dos sentidos, de todos os cinco sentidos e dos outros sentidos todos que sentimos a cada momento. O sentir o minuto que passa e que já desperdiçámos. O sentir o contacto do tecido rugoso. O sentir a maciez do pelo do gato que nos acalma. O sentir no corpo a humidade da noite de chuva. O sentir a responsabilidade de ser coerente com o nosso sentir. O Sentir o amor pelo outro. O sentir o desejo que faz todo o sentido. O sentir que nos magoaram sem sentido. O sentir o prazer de mergulhar no mar. O sentir que sentir é o que conta.

O sentir é algo constante. Nunca pára. Até a dormir nós sentimos: as intermitências do sono, as pequenas recordações semi-conscientes… sentir, sentir, sentir. Que sistema mais aperfeiçoado que nós temos que nos permite este constante emaranhado de percepções!

Sentir que queremos sentir até ao limite, o medo do não sentir. Tanto que nos apavora o deixar de sentir. O medo do mundo do além do sentir.

Sinto muito! Os meus sentimentos! Sentidamente tua, vida sentida!



sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta aquela mulher sensível que me fita do espelho


Olá minha Linda!



Eu sou a outra metade de ti, aquela com quem desabafas quando precisas de confrontar as ideias bem pensantes com as tuas loucuras, quando as dúvidas te assaltam, ou seja, o teu trivial pursuit.

De um lado está o ser que deveria corresponder às expectativas dos outros, ao que a sociedade convencionou, isto é, ao estar formatado. Do outro lado, está a pessoa contestatária e absolutamente indomável e sempre na oposição cada vez que uma ideia bem pensante está no poder. Sabes o que sinto? Medo: essa luta é desigual. O ser sensível que se deixa ferir pela insensibilidade reinante versus a pessoa que mostra fortaleza e dureza, mas chora por dentro. Venha o diabo e escolha!

Questiono-me frequentemente: será que a vida interior não será tão ou mais vivida do que aquela que vivemos por fora, para consumo externo? Onde começa uma e acaba a outra? São amigas ou têm de ser rivais? Sonho e realidade tocam-se… baralham-se…

Que trabalheira me dás. Não achas que já está na hora de perceberes que as conversas dentro da cabeça só servem para complicar a vida do lado de fora dela?

Oh God, make me good, but not yet…

sábado, 4 de dezembro de 2010

A dor




Aquele pedaço de campo era sinistro: o horror em estado puro! Os cromados retorcidos criavam imagens surreais à luz daquela lua tão perfeita e indiferente aquela catástrofe terrena. Apenas o fumo mexia subindo pela noite escura e dando uma teatralidade à cena que nos remetia para cenários demoníacos.

Há muito pouco tempo aquilo era um lindo carro vermelho, deslizando depressa pela noite, iluminado por aquela lua. Lá dentro íamos os dois em direcção a uma urgente noite de amor que prometia paraísos. Mas aquela curva ficou direita, o precipício esperava-nos e nós não esperávamos por ele. O paraíso que nos acenava passou a inferno: o incêndio foi rápido, a explosão brutal. Fomos consumidos depressa, a morte foi violenta e rápida.

Viver indica dor e morrer é indicador de que a dor acabou.

E estes meus pesadelos indicam que estou a enlouquecer…



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O quadro preto


Naquele Domingo cinzento chumbado  tardio sem qualquer cor externa que me aquecesse, resolvi visitar a colecção do Sr. Berardo no CCB.

Fui vendo até que estanquei. Aquele quadro deixou-me agarrada, muda e queda, impressionada e inquieta. Era rigorosamente preto, todo preto, sem nuances, sem texturas. Preto, monotonamente preto. Preto como o quadro preto da minha Escolinha: era o que me vinha à mente. Só que o da minha Escola Primária era primário e este era suposto ser uma obra de arte, valiosa, importante, marcante. Eu quedei-me, analisei, vi e tentei imaginar o que teria sentido o artista ao pintá-lo e o que quereria que eu sentisse. Eu bem queria sentir, mas o preto puro e duro entristecia-me e cortava-me qualquer voo, a minha imaginação fugira com medo do escuro. Eu sozinha (sem a imaginação, fico desamparada) fiquei ali como que atraída pelo abismo daquela monotonia preta. Quanto poderia valer aquela obra? Qual fora o critério para aquela compra? Qual era realmente a importância desta obra na História da Arte? Sentia-me uma pobre mortal a analisar uma obra de arte demasiado complexa num triste Domingo cinzento que estava a ficar mais preto. A coisa que mais desejava era arrancar dali, fugir do quadro preto e ir tentar colorir a minha tarde enquanto era tempo…

Mas impus-me ver o resto da Colecção. Continuei a tentar ver a exposição, mas aquele quadro não me saía da cabeça, de tal ordem que tudo o resto me passou ao lado. Mas que estranho: como é que um quadro que nada me diz me impressionou de tal forma? Mas o que é que estava lá invisível que se me gravou em qualquer lugar cá dentro e não me deixou atenção disponível para mais nada? Continuei até ao fim, sem nada ver e cada vez mais perturbada por aquela obsessão preta.

Voltei ao local do crime, salvo seja! Lá estava ele sossegado perante o meu desassossego, perfeito na sua nitidez preta contra a parede branca: o chamado preto no branco. Olhei à volta: os poucos visitantes que por ali andavam estavam entretidos a ver tudo aquilo que eu não conseguira ver. Ninguém olhava para mim.

Deu-me um ataque e com um marcador vermelho grosso que trazia na mala escrevi o a, e, i, o, u naquele fascinante quadro preto. Porque sim, porque me senti de volta à minha Escola Primária. Pena não haver um pedaço de giz branco que me pudesse transportar a esse tempo! É tão bom ser pequenino e ter quem nos explique o por quê das coisas…

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A perda

A perda que sinto é enorme. Não consigo suportá-la. Dói, embora já nem esteja presente. Dói exactamente ao contrário: dói pela ausência. Como pode a não existência doer? Mas dói imensamente. Dói a sensação de vazio que ficou. Dói o saber que nunca mais o terei. Dói o saber que não vou arranjar substituto. Dói o perceber a falta que me faz: como vou conseguir habituar-me ao dia-a-dia sem ele?

E na minha cabeça apenas existe um objecto cravado dia e noite, a habitar todos os meus sonhos. Sonhos, quais sonhos? São mesmo pesadelos. E a faca está presente em todos eles, com a sua lâmina bem afiada, toda salpicada de sangue vermelho vivo. Os meus sonos e os meus sonhos são vermelhos de sangue e inoxidáveis como aquela faca.

Faca: a palavra corta-me: faca!

E foi isso que ela fez: cortou o meu precioso dedo indicador. Indica dor!




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Outro galo cantaria...


Há 20 anos que sou barman e psicólogo, como qualquer barman que se preza! E até fazem de mim confessor. As coisas que eu sei sobre esta fauna! Quando me reformar vou escrever um livro de memórias. Talvez “As memórias escaldantes de um barman aposentado” ou “Barman, psicólogo, confessor, conselheiro matrimonial, enfim: o homem dos sete ofícios”. Leitores não me vão faltar. Toda a malta que por aqui foi passando vai comprar para ver se os menciono. Ainda hei-de ser famoso, rico não creio, porque dizem que a escrita e o dinheiro não se dão muito bem.

A minha própria vida também vai dar uma boa ajuda: desde histórias bem apimentadas até alguns dramas mal amanhados… A minha mãe abandonou-me ainda eu era um bebé por não ter possibilidades de me criar, sou filho de pai incógnito. Depois de uma temporada num orfanato, fui entregue e aperfilhado por pessoas com pouca propensão para terem filhos, que me foram criando com muito pouco amor e bastantes maus tratos e pelos quais sentia um ódio dissimulado e mascarado de amor filial. Que fantochada!

Aos 17 anos pirei-me de casa e arranjei um trabalho que me permitisse sobreviver sem a “família” que me matava por dentro. E embarquei num cruzeiro. Comecei por fazer diversos trabalhos e, como agradava ao comandante, acabei por me tornar no animador de serviço. E se era animado o trabalho! Enquanto o Berlusconi fez asneiras e fortuna nestas andanças, eu apenas partilhei com ele as primeiras…

A vida prometia-me tudo, os meus dias eram verdadeiras aventuras: ganhava muito bem a divertir os outros e a mim próprio, conheci todo o género de pessoas, finalmente a minha vida era uma grande festa! Vivi aventuras e romances de todo o género, sempre bem tórridos, os quais irão deliciar os meus futuros leitores. Eu rebentava de felicidade até ao dia… mas adiante!

Hoje está uma noite calminha, as quartas-feiras dão para relaxar. É meio da semana e no meio é que está a virtude, assim o pessoal fica por casa a tentar descontar os pecados que pratica nos outros dias.

Já aí vem a primeira cliente. Mulher interessante! Nunca a tinha visto por aqui. Discreta, sentadinha na mesa do fundo com um ar pacato. O roxo fica-lhe a matar, combina com aqueles olhos verdes e pestanudos.

- Boa noite.

- Boa noite, queria um gin tónico, por favor.

Tem ar de solteira já em fim de prazo. Deve estar na fase do desespero. Pena! Não é nada de se deitar fora, é um pedaço de mulher!

Lá vem aquele executivo do costume, todo “comme il faut”, com o seu fato italiano. Deve ter a mulherzinha tipo tiazorra em casa, daquelas muito queques que só pensam em parvoeiras e não se aguentam! Como eu o compreendo! Nem precisa de pedir, já cá vai o JB 12 anos do costume. Gosta de olhar, mas também já o vi fazer o seu engate, sempre de bom gosto e muita descrição, um cavalheiro!

Ora, nem podia falhar, já está a dar em cima da pequena de olho verde e com o prazo de validade a esgotar-se. E ela a olhá-lo com um ar super-dengoso, com aqueles olhos que prometem muito, o paraíso no seu olhar, como diz o outro! Boa!

Ui, aí vem um do tipo intelectual de livrinho debaixo do braço e não é um livro qualquer, não sou nenhum expert em literatura, mas ainda sei quem é Kafka e reconheço “A Metamorfose”! O gajo tem ar de Miguel Sousa Tavares: feio, charmoso e com aquele ar enfastiado. Blazer de veludo cotelê bem gasto e jeans ruças: um ar pseudo-desleixado mas muito fabricado. Quem não os conhecer!

- Boa noite, queria um chá gelado, se faz favor!

Coitado: está a chá, num sítio destes, que lata! Faz o género! Não ia beber álcool como qualquer vulgar de Lineu!

A pequena de roxo ficou impressionada. Olha-o com um ar matador, daqueles que não deixam margem para dúvidas. É um olhar que derrete o coração mais empedernido! O executivo é que parece não estar a achar graça nenhuma. Pudera! Pensava que já estava no papo e pumba: aparece o Miguel e arrasa, dá-lhe cabo do esquema. Há noites assim! Nem sempre o peixe morde o isco…

Pois é, o Miguel olha para ela com o seu ar sobranceiro, que irrita as pedras da calçada e que deixa as mulheres estupidamente caídinhas, dirige-lhe um olhar avaliador e senta-se com o ar mais indiferente deste mundo! Abre o seu precioso Kafka e enfronha-se na leitura…

Meu Deus: tanta expectativa, o gajo lixa o esquema ao outro e, ainda por cima, vai dar cabo da auto-estima da pobre rapariga. Troca uma treta dum livro por uma febra daquelas! O mundo está de pantanas, é o que é! O que isto mudou, já não há homens como antigamente… Ainda bem que estou quase na reforma, não aguento ver estas merdas, dá-me volta ao estômago e tenho de engolir e cara alegre! Que desperdício! Se eu estivesse do outro lado do bar, outro galo cantaria…

Por falar em galo, que grande galo que eu tive com aquela mulher, a Xana! A vida estava a correr-me tão bem, conhecia gente linda e divertida, sempre renovada em cada viagem, curtia até não poder mais e se eu podia bastante!

Naquele dia embarcou aquela mulher com um ar enigmático, linda de morrer e eu fiquei absolutamente atraído, ela era um íman. A paixão assolapou-se e eu estava sem jeito, sem qualquer defesa, depositei ali todo o meu amor, aquele que nunca dera a ninguém. E recebi o mesmo em troca. Eu que era virgem em sentimentos! A entrega foi total e a paixão tomou conta de nós, sem nos dar margem para dúvidas. Nessa mesma viagem desisti daquela vida. Instalámo-nos num pequeno apartamento em Lisboa e começámos a viver um para o outro, a gozar o dia a dia, a fazer todo o género de loucuras que a paixão engendra até esgotar o dinheiro que tinha ganho naqueles anos todos. E aí tive de voltar a ir bulir. Surgiu este trabalho como barman que assentava na perfeição e cá fiquei até hoje.

A Xana? Durou o tempo que ela quis. Fomos felizes de uma forma que me retirou todas as possibilidades de voltar a sê-lo. Esgotei-me nela… Um dia cheguei a casa e ela tinha sumido e com ela sumiram todos os meus pertences. Se a procurei? Procuro-a todas as noites, procuro-a no fundo dos copos que vou esvaziando e me vão dando coragem de continuar a viver para ela. Vou procurá-la quando publicar o meu livro, ela será a protagonista ausente-presente e também a leitora que verterá algumas lágrimas algures em qualquer parte deste mundo ou, quem sabe, noutro qualquer …

Lá vem outro cliente… e outro e outro… copos, copos e mais copos …

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O quinto elemento




É um dia quente. É um belo dia. Tudo é luminoso!

Que encantamento me vem deste lugar: é um azul forte, que contrasta com as montanhas que o enfeitam de um dos lados e o céu que o lambe lá ao fundo. E o calor não me perturba, apenas me faz sentir mais fortemente toda esta envolvência. As cores cantam! O mar muito azul vem suavemente rebentar naquela areia dourada e eu, deitada por ali, sinto-me igualmente dourada e sou também um elemento. Não sou a montanha que se debruça sobre este mar e o embala de ternura. Não sou este céu azul intenso que nos faz voar bem alto! Não sou o fogo, esse mora cá dentro. Sinto-me e sou o 5º elemento, aquele que não está ali e que é necessário: o sentimento que me habita e que pode cantar os outros quatro elementos, sou o elo de ligação, aquele que faz com que todos os outros existam e possam ser apreendidos e sentidos na sua beleza. Se não fosse eu estar a sentir cá bem dentro o que neste momento me enche e transborda para esta envolvência, esta paisagem seria mas insípida, mais trivial, mais sem cor. Nós somos o que vimos e o que vimos é sempre o nosso reflexo.

Daí, esta paisagem hoje é deliciosa, mas ontem poderia nem sequer ser.

A única constante é a mudança!

E o único sentimento que conta é o que neste momento me habita e transborda: este amor pela natureza que me embala neste dia quente e me faz sentir como parte deste belo quadro.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A ampulheta existencial


Aquela ampulheta provoca a dor da passagem do tempo. A fina areia dourada não pára, cai por aquela passagenzinha minúscula, vai escorrendo de cima para baixo. E nós a absorvermos aquela ideia do tempo a escoar-se, cada segundo, tic-tac, e o tempo vivido a crescer e o tempo por viver a encurtar… E a própria estrutura de madeira é uma jaula da passagem do tempo, a madeira que será a do nosso caixão ou da pequena caixinha que levará a cinza dos que serão cremados… E a areia é imparável, não adianta tentar pará-la, a sua passagem é constante, devagarinho lá cai ela… O nosso envelhecimento vai ao ritmo da areia dourada, devagarinho, construindo as suas rugas, as suas mazelas, internas e externas, aumentando o caminho percorrido. E o mais injusto é que cada vez estamos mais agarrados à nossa vida, aos nossos afectos, ao nosso mundo! E sabemos que tudo vai terminar mas não temos qualquer informação do quando, como, aonde, com quem, de que forma.


Tal como a vida, também aquela ampulheta é bonita, reluzente, se apenas a analisarmos de fora e não interpretarmos o seu significado. Ela mede o nosso carrasco: o tempo! A beleza e o tempo são dois irmãos por quem nos deixamos enredar: prendem-nos, enganam-nos e depois largam-nos.

Por tudo isso, temos de aproveitar o entretanto muito bem, porque entretanto o entretanto já passou. Carpe diem!


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Não deixes cair o teu véu...


Que encantamento me vem deste ser: quente, luminoso e forte! Tal como esta paisagem, ele faz-me sentir integrada, mas ao mesmo tempo com vontade de não me deixar ir, a contradição: a pertença e a não-pertença! Mas sempre este calor envolvente, protector! Tépido como a água e, ao mesmo tempo, calmante e excitante como o mar é tantas vezes! Embala-me com a mesma ternura com que a montanha se debruça sobre o mar. Ele é o motivo e a essência desta harmonia e desta luta. Ele existe para que eu sinta um sentimento e o seu contrário. É um contentamento descontente…. Os dias são mais coloridos porque ele existe. O acordar para o mundo, o sentir o mundo ganhou novos contornos. Tudo se alterou. Nada é o que foi e nada será o que é agora. O presente é agarrado com uma força desconhecida. Ele é a força. É o despoletar de uma natureza com uma energia que espanta a própria natureza.

E eu fui apanhada, gostosamente empurrada por este turbilhão de sensações. Como os estados de alma dão ou tiram o sentido das coisas é um mistério que nunca queremos descobrir completamente. Ao contrário do que o outro diz: não deixes cair o teu véu!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E tudo o vento levou


Estava uma tremenda tempestade e eles sentados naquela noite medonha naquele pedaço de paraíso envidraçado a tentar ver o mar furioso… Metia respeito! A seguir o trovão reforçou a sensação de medo! A crise de nervos tomou conta dela.

Até o peixe que estavam a comer estava nervoso, ou seriam os talheres que lhe tremiam nas mãos e que faziam o peixe ter vida própria mesmo depois de bem grelhado? Seria a presença ainda estranha daquele homem bonito ao seu lado que ajudava a sensação de pânico a tomar conta dela? O próprio Fritz, the cat cheirava o ar, seria o cheiro do peixe ou a tensão que pairava que ele estava a captar? A praia lá fora era um completo caos. A tempestade tomara conta de tudo e mal se vislumbrava algo que não fosse um cinzento leitoso e molhado.

Ela foi à cozinha buscar a salada. Quando voltou, aquele rapaz lindo que conhecera já não estava. A janela estava aberta. O gato fora curtir e não se via. Nada se via. Só se ouvia o barulho da tempestade e do vento!

Nesse momento compreendeu o total significado da expressão: e tudo o vento levou….

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

As iludências aparudem



Aquele ar rígido era todo arestas. Negro azeviche no cabelo cortado a direito e na franja em linha recta. Tudo rectilíneo. O vestido preto direito, com decote quadrado. Miss Sterck é demais! Toda rectas.

Só o seu hábito de flores preenchidas por curvas sobrepostas até ao infinito lhe arredonda alguma coisa, e essa coisa está fora dela!

A sua personalidade é também recta, sem andar por aí às curvas. Nada de estranho se lhe pode apontar. É recta, straight, um exemplo de virtudes. Tanto rigor e linearidade irritam! Tanta perfeição direita raia a loucura!

Mas não há bela sem senão: ela tem o seu segredo, e que segredo! Esconde-o debaixo de tanta rigidez. Esconde-o tão fundo, no fundo das camadas mais fundas das profundezas do seu ser, nunca ninguém o poderá descobrir!

Não fora o seu confessor e só Deus o saberia! Mas o padre era também um poço sem fundo, o segredo iria morrer com ele…

Esta mulher tão rigidamente recta tem o hábito de, nas suas noites solitárias e sombrias (que por acaso são todas), na sua casa escura e sóbria e recatada e sem conforto, em frente ao enorme espelho que comprou propositadamente para esse fim, pôr a velha e sempre renovada música “you can leave your hat on” e, devagar e sensualmente, retirar todo aquele austero vestuário rectilíneo negro, deixando à vista aquela lingerie de renda preta que a faz sentir poderosa e pôr um chapéu negro na cabeça. E aí ela arredonda-se ao praticar a sua sessão privada de strip-tease para o homem da sua vida, só para ele, a sua grande paixão: Deus! Para que lhe serviria um homem se ela tem um Deus?

Não fora aquele padre metediço e este segredo divino ficaria entre Ele e ela!

A irmã de Miss Sterck

Adorava ser como a minha irmã mais velha: sempre tão comedida, tão composta, tão bem vestida, sempre de preto, é certo, mas isso mostra que tem muita personalidade, sabe bem o que gosta e quer. É uma mulher sem defeitos, daí qualquer comparação me deixar sempre a perder…

E aquele seu cabelo negro liso e sempre alinhado, lindo! Bem tento desfrisar este meu cabelo selvagem, mas o resultado deixa-me a léguas dela. Uma desgraça!

E aquele seu jeito inato para fazer aquelas lindas flores, que crescem através de linhas que se vão encontrando e desencontrando e tecem flores enormes! Tem a casa cheia destas flores maravilhosas, até já me ofereceu algumas no Natal ou nos meus anos. Claro que as guardo religiosamente.

Até nisso somos diferentes, religiosamente falando, ela é muito devota a Deus e eu sou a desnaturada que se sabe!

Nunca teve namorados, pelo menos, que se saiba! É muito recatada: ela é trabalho-casa, casa-trabalho. As noites, passa-as em casa. Suponho que reza muito. Podia ter sido freira… Todas as semanas se vai confessar. Nem percebo que pecados terá!

Só lhe conheço um segredo: adora beber o seu copito, às vezes mais do que um, coitada, no meio de tanta perfeição, um copito a mais até lhe dá a sua graça!



terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nasceu-lhe um gatinho na cabeça



Nasceu-lhe um gatinho na cabeça

Um gatinho sobe pelo corpo da Marta acima. Ela ri-se num cúmplice bem-estar. Ele corre com o riso dela. Trepa-lhe para a cabeça e empurra-lhe o cabelo para os olhos. Um flash: a máquina capta o momento colorido de ternura com o gatinho cinzento. O fundo é cinzento de pedras da Galiza. O céu lá fora também está cinzento. O cheiro branco do leite transborda do gatinho.

Assim se deu o parto feliz: o gatinho nasceu na cabeça da Marta, juntamente com a felicidade estampada no seu rosto redondo, qual lua cheia grávida de esperança, porque a vida é gostosa e promete amanhãs coloridos. E despenteada, como se tem de estar, porque a vida despenteia quando se vive com gosto.



Morreu-lhe um gatinho na cabeça

Morreu-lhe um gatinho na cabeça. O cheiro do leite azedou. Os campos lá fora ficaram vermelhos, tingidos do sangue que não parava de latejar na sua cabeça. Já morrera o conforto e o ron-ron. A tempestade irrompeu por ela abaixo e um relâmpago consumiu-a de medo. O gato morreu. As férias viraram pesadelo. O amanhã já não existe. Só quer enterrar a cabeça num buraco qualquer.

Mentira! Esta morte não passou de um exercício ao contrário duma aula de escrita criativa. Faz, desfaz e refaz! Já passou. O gatinho está vivo e recomenda-se e a Marta continua a ter um amiguinho de quatro patas muito brincalhão.

Tudo está bem quando acaba bem.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A voz sensual e a cusquice


Estava eu posta em sossego a pensar na vida e na evolução ou retrocesso da dita neste momento neste país e, portanto, um bocado preocupada e não propriamente no meu melhor, quando sou despertada por duas vozes que falavam baixo, mesmo por trás de mim. No meio do desassossego que sempre é o Jardim de S. Pedro de Alcântara num belo fim de dia em pleno mês de Setembro, aquelas vozes fizeram arrebitar os meus cinco sentidos. Para ser mais sincera: foi a voz masculina que me chamou…

Pertencia a um homem, que devia andar pelos trinta e tal anos, e era rouca e sensual. Era uma voz interessante, bem timbrada, daquelas que os galãs usam nos filmes. Não resisti a continuar a ouvi-la! A voz feminina era entrecortada, incaracterística e cheirava a medo.

Apurei o meu ouvido quanto consegui e ouvi a frase fatal: “ele não pode sonhar, senão mata-me”.

Ora bem! Ou antes, ora mal! Coitada da rapariga! Detesto meter-me na vida dos outros, mas também não era o caso. Eles estavam ali atrás de mim, nem os via, não podia saber quem eram e estava num estado de espírito em que a cusquice se conseguiu instalar confortavelmente.

“Teremos todo o cuidado, mas não podemos desistir do que sentimos. Para mim, é o que faz com que a vida continue a valer a pena!”

Pois senti-me um bocado intrusa, levantei-me calmamente e comecei a andar na direcção contrária. Mentalmente desejei as maiores felicidades àqueles dois: que aquele terceiro elemento nunca sonhe, que durma sempre que nem uma pedra para que a vida continue a valer a pena para o senhor da voz sensual! Nunca olhei para trás, não fosse a imagem não corresponder à voz! Detesto desilusões e já tive as minha dose!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Bar "Ainda a noite é uma criança..."




MULHER DE PRETO

Naquela noite preta, preta, vesti-me completamente de preto e com a alma bem preta fui aquele bar do costume. Entrei, passei pelo balcão, apanhei o meu costumeiro acompanhante gin tónico e fui para a mesa mais discreta, mais ao fundo, mais dentro e mais fora dali. Pela primeira vez apercebi-me que o bar era grande ou eu senti-me tão pequena que tudo o resto era enorme. Bebi com prazer, com vontade de me afogar…

Olho para a porta e vejo entrar um velho muito velho com uma boina à Che Guevara preta contrastando com uma bela cabeleira branca tipo ovelhinha imediatamente antes da tosquia. Entrou ensaiando uns passos malucos cegos e trôpegos na vã tentativa de alcançar o balcão. O barman, sempre atento, vai ao seu encontro e lá o encaminha para um banco próximo. Ele executa uma pirueta muito cómica, tenta uma vénia e quase cai, endireita-se num ápice e pede “um whisky bem aviado” numa voz aflautada tão cómica que desato a rir, tenho um sério ataque de riso incontrolável. Não consigo parar. Choro a rir. A situação é idiota de todo.

Eis senão quando entra em cena um ser absolutamente indescritível, que me faz voltar ao normal: é homem, é mulher? É alguém que flutua até ao balcão, vestido com um azul eléctrico que quase me encandeia, com uma capelina a condizer, segurando um cigarro numa boquilha da mesma cor. Tudo nele/nela é daquele azul magnético, com uma excepção: o livro que segura com tanta elegância. E surpresa: era “O Principezinho” de Saint-Exupéry!


VELHO COM BOINA À CHE GUEVARA

Vi aquela mulher de preto atravessar a rua sempre a olhar em frente, seguindo direita ao bar, atropelando o trânsito, por sinal bem intenso e que estancava em cima dela. Ela parecia nem reparar e lá ia completamente doida: queria matar-se, estava noutro planeta, seria surda?

Tinha de indagar! Assim, pensei um breve minuto e achei que ela estava a precisar de ajuda. Como de costume, eu tinha de interferir, indiferente é adjectivo que não se me aplica.

Entrei no bar ensaiando uns passos amalucados, vagueei como se fosse muito mais velho e estivesse bem bebido, ou drogado, ou Alzheimeriado de todo. Fui por ali fora sem olhar para lado nenhum, como ela fizera no meio do trânsito, só que ali ela era a única espectadora, tirando o barman, claro. Ele topou-me e lá me encaminhou para o balcão. Pedi um whisky bem aviado numa voz aflautada que faria rir o comum dos mortais, bem alto para ver se ela ouvia. E ouviu mesmo, porque se escangalhou a rir, incontrolavelmente, sem parar. Era isso: ela estava na fossa, ia de um extremo ao outro no mesmo minuto.

Meu Deus, como poderia eu ajudá-la?

Estava no meio deste dilema, quando vejo aparecer uma figura azul completamente sui generis, andrógina q.b., que me desvia completamente a atenção. Desfilava como se estivesse numa passerele aplaudido por uma plateia em delírio! Era o oposto da mulher de preto: queria mesmo era chamar a atenção, vinha para ser visto, era o centro dum universo só existente na sua cabeça. Dirigiu-se ao balcão e aquele azul intenso que usava fez-me sentir num mundo azul, ele azulou tudo à volta, pedindo numa voz nasalada com sotaque estrangeirado:

- Garçon, boa noite! Tem absinto?

Absinto? Que absurdo, aquela estranha figura, pedindo uma estranha bebida e passeando pela mão “O Principezinho”.

Somos todos personagens fellinianas. A vida é um grande palco, como dizia o outro. E nós desempenhamos tantas personagens quantas a nossa imaginação permite!

PERSONAGEM AZUL

Entrei naquele bar por que o nome me chamou: “Ainda a noite é uma criança…”. Eu também achava, era uma criança ávida de aventura.

Eu estava com a pica toda, ia super bem disposto. Ainda era cedo, mas entrei com todo o meu glamour, destilando charme, cheio de vontade de me divertir, de curtir. Dirigi-me ao balcão e olhei insinuantemente para o barman, um tipo giríssimo, género “portas” de discoteca fashion, bem curtido e pedi na minha voz mais sexy: “Garçon, boa noite. Tem absinto?”

Esperei, esperei e só a muito custo e quase por favor me respondeu: “Não vendemos disso”.

Que mau feitio. Tão bonitinho e tão parvinho! Que seca!

Só então reparei num velhote de boina à Che com cabelo branco em cachos, com o ar de quem já tinha visto melhores dias e principalmente melhores noites e me olhava de boca aberta. Mirou-me dos pés à cabeça e fixou o olhar no meu livro como se eu fosse o portador de algum truque de magia que o pudesse salvar de mais uma noite de tédio à voltas com o seu querido whisky.

Então lá tive de pedir aquele metrosexual: “Bom, nesse caso, quero um carolans com duas pedrinhas de gelo”. O tipo olhou-me com mal disfarçado asco, como se eu fosse algum réptil: desgraçado!

As pessoas sempre me olham como se eu fosse um ovni. Parece que não suportam quem é diferente. Gostariam que eu tivesse o género escrito na testa. Mas eu adoro baralhar e dar de novo: não sou homem nem mulher, sou um bicho, esta noite sou um bicho azul intensíssimo, gostoso, charmoso, que desperta a curiosidade. Ontem, por exemplo, fui um outro ser, rosa, tipo pantera. Adorei! Sou um ser colorido. Não me peçam para ser um bicho cinzento, um homem pardo, uma mulher transparente. Que horror: a normalidade enerva-me. Viva a diferença!

Peguei no carolans que o garçon me trouve e fiz “Cheers” a ele e ao velho. Ambos continuaram a olhar sem reacção. Que brutos! Por sorte estava uma bela senhora vestida de preto com uns olhos pretos enormes que me respondeu “Saúde e noite feliz!”

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O rapaz de olhos azuis - Joanne Harris



Sempre adorei thrillers, romances, policiais em que o crime seja o tema. Os meandros da mente humana, as motivações e os  distúrbios de personalidade, pessoas comuns que deixam emergir as facetas mais sinistras, psicopatas escondidos na capa de pessoas simpáticas, os labirintos mentais de quem tem de ultrapassar os limites socialmente aceites, os quês, os por quês, os comos, os quandos: tudo isso me fascina!

Primeiro consumi Agatha Christie até à exaustão. A seguir tornei-me intíma de Ruth Rendell. Mas foi a Patricia Highsmith que me conquistou completamente. As mulheres escrevem magistralmente sobre estes temas, sobre o lado sombrio da existência a coexistir com uma vida o mais normal possível. Este tipo de romance é literatura menor? Eu acho que quando é bom tem o mesmo nível que outro tipo de romance. E também quem é que aguenta só ler Proust e afins? Precisamos manter a sanidade mental para não sermos nós também protagonistas de algum destes casos de desvios comportamentais... Por mim, sou muito eclética em várias áreas e a literatura não é excepção! Mistura é a palavra-chave!

A minha amiga Sandra, fã incondicional da Joanne Harris, ofereceu-me este livro. Nunca tinha tido qualquer contacto com a escrita dela, apenas sabia que os críticos a achavam light. Mas eu sou como S. Tomé: ver para crer, neste caso: ler para crer.

Assim, levei o livro de férias comigo e saboreei-o, devorando-o, mas devagar. A Joanne conseguiu prender-me ao longo desta história-puzzle bem complexa! É extremamente arriscado a ideia de contar tudo através das entradas dos protagonistas num Webjournal. E ela fá-lo com muita habilidade. Os crimes-perfeitos biográficos são contados on-line: serão reais? Serão apenas ficção dos exercícios de escrita criativa? O leitor fica bem baralhado...

É usada a sinestesia de alguns personagens, o que dá uma escrita bem colorida através da união feliz dos sentidos. As complexas relações mãe/filhos são analisadas e aprofundadas nas suas mais estranhas perversidades. "O peso da atenção da minha mãe pairava agora sobre a minha vida como uma nuvem de trovoada permanente". Relações amigáveis entre irmãos? Nesta história não, obrigada!

A autora termina duma maneira que nos deixa meios atordoados. Dá-nos um final para interpretarmos, não nos oferece a papinha feita, fica por nossa conta o desfecho da história. Também temos de criar, por que não?

Se um livro é o diálogo entre o escritor e o leitor, este romance mantém essa relação bem viva. Joanne Harris vai-nos dando muita informação, muitas conexões, muitas interacções entre pessoas e histórias, vai-nos informando, baralhando e obrigando a estarmos muito atentos: faz-nos interpretar, concluir e ir tecendo a própria trama. Como leitores, não nos limitamos a ler, temos de participar. Caso contrário, é melhor desistir ou a confusão toma conta de nós.

Esta não é uma leitura fácil, mas a escrita também não é light. Os críticos adoram rótulos. Somos nós que temos de decidir o que é uma boa ou má leitura. E se somos bons ou maus leitores.

A cor é uma forte componente neste livro, as próprias palavras são coloridas. E o azul é a cor dominante: "o azul é a música da alma". Este livro coloriu algum tempo das minhas férias, em tons de azul, que é a minha cor. Foi uma leitura feita na praia, em frente de um mar azul e de gloriosos céus em tons de azul. O azul é bem a música da alma!

sábado, 16 de outubro de 2010

Pontos de vista


“História de um conhecimento improvável “ ou “Como as bruxas andam por aí, basta convocá-las”

(ponto de vista da Rita)

- Boa noite
- Boa noite
- Será possível falar com a Rita?
- Aqui não vive nenhuma Rita.
- Lamento, devo ter trocado algum número. Peço imensa desculpa. Boa noite.

(Já me perdi. Gostava bem de me chamar Rita, azar não ter podido escolher, mais uma daquelas coisas que carregamos contrariados. E logo eu, que acho os nomes tão importantes!)

Trrim, trrim, trrim

- Boa noite
- Estou a conhecer a voz, deixe-me adivinhar: quer falar com a Rita…
- Queria, mas já não quero, quero mesmo é falar consigo. A sua voz deu-me vontade de tentar, pelo menos, ouvi-la mais um bocadinho. Não se zangue comigo, pleeeeease! A culpa é mesmo dessa voz! (riso)
- É curioso, você fez-me sentir pena de não ser a Rita, não a que conhece, mas a outra, era o nome que eu gostava de ter, era uma Rita que eu gostava de ser.
- Fazemos assim: para mim você será sempre a Rita, acha bem?
- Por mim, não podia estar melhor. E você, como gostava de se chamar?
- Adorava ser Miguel.
- Adora ser o Miguel, porque é assim que o vou chamar.
- Acho estes baptismos um bom princípio. Não estou a interromper nada de importante?
- Por acaso estava a preparar as coisas para um curso que vou iniciar amanhã, mas tenho tempo…
- Coincidência: amanhã também vou começar um curso absolutamente novo para mim. Sempre desejei experimentar este meu lado escondido e agora calhou e lá vou eu. Escrita Criativa, imagine!
- Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há! (Riso) Não é que eu também vou entrar num curso desses!
- Não é na Companhia do Eu, claro!
- Ai as bruxas… (riso) É mesmo aí, caro colega!
- Então não temos nada para combinar. Está combinado: amanhã às 9 e meia, caríssima colega. Já temos algo em comum…
- Lanço-lhe um desafio: vamos criar uma história que começa por este telefonema. O real e a ficção de mãos dadas…
- Aceito. Já estou a arquitectar umas coisas.
- Então até amanhã, Miguel. Noite descansada.
- Até amanhã, Rita. Noite feliz.

(Meu Deus, a vida é uma graça… Pelo menos já conheço alguém no Curso, estava em pânico por ir sózinha, até me sinto mais segura. Embora seja alguém que não sei como é, nem o nome, afinal. Que disparate, não sei sequer o nome dele nem ele o meu! E nem sabemos o aspecto do outro, a idade, etc. Boa! Mais uma curiosidade a acrescentar à “História dum conhecimento improvável” ou “Como as Bruxas andam por aí, basta convocá-las”. O título é muito importante, tenho de dormir sobre ele…)




“I am the King of the World” ou “A sorte não cai do céu, temos de usar a imaginação e dar uma mãozinha”
(ponto de vista do Miguel)

- Boa noite
- Boa noite
- Será possível falar com a Rita?
- Aqui não vive nenhuma Rita.
- Lamento, devo ter trocado algum número. Peço imensa desculpa. Boa noite.

(A primeira parte já está. Estou uma pilha de nervos. Já lá vai um mês desde que a vi pela primeira vez. Ela tinha algo que me fez segui-la até a ver entrar no prédio onde vive. E tive a sorte de ficar no passeio em frente a olhar nem sei por quê… Mas fui mais que compensado quando a luz do 3º direito se abriu e ela veio fechar a janela. Daí a ter sabido o número de telefone fixo foi um passo. Mais uma vez: factor sorte, tinha fixo da PT. Mas isso agora não interessa nada. Força, Afonso, agarra-te à sorte, tchxaram…)

- Boa noite
- Estou a conhecer a voz, deixe-me adivinhar: quer falar com a Rita…
- Queria, mas já não quero, quero mesmo é falar consigo. A sua voz deu-me vontade de tentar, pelo menos, ouvi-la mais um bocadinho. Não se zangue comigo, pleeeeease! A culpa é mesmo dessa voz! (riso)
- É curioso, você fez-me sentir pena de não ser a Rita, não a que conhece, mas a outra, era o nome que eu gostava de ter, era uma Rita que eu gostava de ser.
- Fazemos assim: para mim você será sempre a Rita, acha bem?
- Por mim, não podia estar melhor. E você, como gostava de se chamar?
- Adorava ser Miguel.
- Adora ser o Miguel, porque é assim que o vou chamar.
- Acho estes baptismos um bom princípio. Não estou a interromper nada de importante?
- Por acaso estava a preparar as coisas para um curso que vou iniciar amanhã, mas tenho tempo…
- Coincidência: amanhã também vou começar um curso absolutamente novo para mim. Sempre desejei experimentar este meu lado escondido e agora calhou e lá vou eu. Escrita Criativa, imagine!
- Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há! (Riso) Não é que eu também vou entrar num curso desses!
- Não é na Companhia do Eu, claro!
- Ai as bruxas… (riso) É mesmo aí, caro colega!
- Então não temos nada para combinar. Está combinado: amanhã às 9 e meia, caríssima colega. Já temos algo em comum…
- Lanço-lhe um desafio: vamos criar uma história que começa por este telefonema. O real e a ficção de mãos dadas…
- Aceito. Já estou a arquitectar umas coisas.
- Então até amanhã, Miguel. Noite descansada.
- Até amanhã, Rita. Noite feliz.

(“I am the King of the World” ou “A sorte não cai do céu, temos de usar a imaginação e dar uma mãozinha” parecem-me bons títulos para a história que vou escrever. Ela vai compreender, até vai achar graça. Mas realmente um bem nunca vem só: naquele dia que entrei no mesmo autocarro em que ela entrou com uma amiga e ouvi, por mero acaso, como sempre, que ela ia começar um curso de Escrita Criativa na Companhia do Eu. E contou todos os detalhes: foi a cereja em cima do bolo. Até senti que eu próprio podia bem puxar pela minha veia e lá me inscrevi também… Socorro, estou a apaixonar-me, é impossível resistir a tanto charme! Estou que nem posso, vou dormir mal! E ainda por cima a voz é linda também! Só espero que não escreva melhor que eu…)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A história do Amor - Nicole Krauss


A "História do Amor" é um livro encantador, e esse encantamento acompanha-nos do princípio ao fim da leitura e fica em nós...

Nixole Krauss começou por escrever poesia e, neste romance, continua a escrever poesia, mas em prosa, criando um puzzle mágico, muito original.

Um livro, escrito há mais de 60 anos consegue atravessar oceanos, passar por várias mãos e influenciar várias vidas. Viajamos pela reconstituição de laços: laços de afectos que se atam e desatam e se voltam a atar e a criar novos laços... Visitamos solidões em que sentimentos vivem prisioneiros. O que é real, o que poderia ter sido? Tantas potencialidades que cada vida destas personagens inesquecíveis encerra!

É preciso muito talento para conseguir manter através deste emaranhado de situações, personagens, ligações reais, saltos temporais e espaciais, esta coerência e interesse constantes! A beleza, a originalidade, a paixão, o sonho pulsam nesta trama que se vai tecendo e ajustando a cada nova situação.

Acabamos a leitura com um sorriso de prazer e com a sensação de que valeu a pena, pena já ter acabado...


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mãe-árvore


Esta árvore enorme, com uma longa história de  vida e com uma barriga aberta para vermos como é tão bonita por dentro como por fora, fez feitiço comigo. Encantou-me. Não posso ir ao Jardim da Estrela sem a visitar, é como uma amiga: não passamos por casa dela sem lhe falar. E esta amiga mora num sítio lindo, vou visitá-la muitas vezes.  Estão-lhe a nascer plantas na barriga: um pequeno mundo encerrado noutro maior. Que maravilha!
Não sei qual é o seu nome mas eu chamo-lhe Mãe-árvore... Claro que é uma mãe, avó, bisavó, n avó, está velhinha, está oca, mas continua bem firme e hirta!
Lá está ela, sempre muito orgulhosa da sua fértil gruta-barriga e com os seus ramos bem erguidos a glorificar a mãe-natureza que a foi tornando tão diferentemente bonita! Foi a sua diferença que me fez parar, voltar, guardar em foto, visitar, ficar encantada por a ver sempre tão bem enraízada e ao mesmo tempo com a cabeça nas nuvens! E não é paradoxo: é assim! Velhinha, mas curtida!
Tal como nós, também as árvores têm aparências tão diferentes! Como não há dois seres iguais, também não há mais nenhuma como esta! É esta diversidade que torna este mundo tão interessante!
Vivam as diferenças!



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Aquele banco de jardim, sempre o mesmo!



Dois velhos encontram-se num banco de jardim, sempre o mesmo! Apanham o calor dos últimos raios de sol, vivem aplicadamente aqueles momentos que sabem que não se vão repetir tantas vezes quantas gostariam. Conversam devagar. Já não se conversa intensamente como dantes... Há já certas incongruências: no meio duma frase, param, já algo se perdeu! Já saltaram para outro tema, para outro tempo: o tempo em que não pensavam se teriam tempo. E bailam farrapos de passado que instalam por momentos um sorriso sereno nos seus olhos vincados. E visitam-nos esgares de futuro que os fazem desejar ir lá, ainda ter tempo para lá ir...

Há silêncios, muitos silêncios que perderam significado... significam cansaço!

Fazem balanços mentais. O que valeu a pena, as incertezas, os prazeres que amargaram, os desejos que já adormeceram...

Mas o mais triste é pensar nos que já partiram. Tantos partiram! Tantos! Tantas vidas que cruzaram com as suas. Outras tantas que seguiram paralelas! Tantas que já nem se conseguem lembrar de todas!

O que mais dói agora é a solidão. Por isso se encontram todos os dias, no mesmo banco! Por isso procuram ansiosamente o olhar do outro, o aperto de mão, as palavras que apaziguam, a partilha que aquece o coração, que o faz bater um nadinha mais depressa!

Com o passar do tempo, o que começou por ser uma conversa de circunstância entre desconhecidos, foi crescendo, ganhando terreno no outro, passando a confidência, a partilha. Ganharam o hábito um do outro, e foi nascendo e crescendo e tomando conta deles aquela amizade a que se agarram porque precisam tanto de se agarrar a alguém para não caírem!

É bom abrir os olhos todas as manhãs e saber que é preciso seguir todas as rotinas até ao banco do jardim. O outro está à espera! Como estará hoje? É alguém que os espera, que partilha, alguém que os obriga a arranjar-se todos os dias, alguém que merece aquele sorriso que já vai desenhado pelo caminho fora e que leva um sorriso ainda mais bem desenhado em troca. Que bom ainda existir aquele amigo!

Enquanto esse amigo lá estiver, o caminho será sempre percorrido, terá sempre um fim: aquele maravilhoso banco de jardim, sempre o mesmo!

As velas ardem até ao fim - Sándor Márai





Sándor Márai é um mestre de técnica narrativa neste belo romance. Alguns consideram-no uma obra-prima da literatura húngara do sec. XX. É uma obra muito bem escrita, densa, complexa, emotiva, com uma escrita muito intimista que me deu muito bons momentos.

É um tratado e uma reflexão sobre a amizade que, tal como uma vela, arde até ao fim. O título é muito sugestivo, chama-nos e atrai-nos. Que bela escolha!

Finalmente, ao fim de 41 anos de separação devido à fuga de um deles, dois amigos reencontram-se. Depois de sobreviverem ao colapso dos valores que defenderam e ao desmoronar do seu próprio mundo e à morte de Krisztina que foi o centro de tudo. Foram 41 anos em que um segredo ensombrou as suas vidas, foi guardado, repensado, remoído, triturado, analisado até à exaustão. Encontram-se e têm de enfrentar, analisar e ver todo o passado à luz da verdade. É muito interessante que toda a reconstituição do passado seja feita pelo lado do triângulo amoroso que menos pode ter certezas sobre o que se passou: o marido. E só a velhice lhe pode ter trazido a serenidade e a sabedoria para a análise tão completa e profunda e o confronto tão compreensivo com o amigo que o traíu.

"A amizade deles era tão séria e silenciosa, como todos os grandes sentimentos que duram uma vida inteira. E, como todos os grandes sentimentos, continha também um certo pudor e sentimento de culpa. Uma pessoa não pode apropriar-se impunemente da outra, separando-a dos restantes."

"Sobreviver a alguém a quem amámos tanto que teríamos sido capazes de matar por ela, sobreviver a alguém a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida."

"Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade."

"O Eros da amizade não precisa do corpo... longe disso, incomoda mais do que excita. Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas."

É um livro muito belo e profundo. Faz diferença não o ler...


terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Caracol e a "Garden Party"





Sou um caracol e a minha divisa é “Devagar se vai ao longe”. Levo a vida muito serenamente: tacteio tudo, sinto todos os odores, nunca me apresso. Dou tempo ao tempo.

Talvez por isso o Homem adoptou-me como símbolo da “Slow Food”: é o retorno às refeições saboreadas lentamente, confeccionadas com tempo e cuidado, enfeitadas com conversas gostosas, com produtos tradicionais. O Homem começa a perceber que tantas correrias e stress não o levam longe, ou levam mais longe mas com menos qualidade de vida.

O prazer precisa de tempo para ser apreciado, sem pressas. Precisa de disponibilidade, de relaxe, de esquecer o relógio, de entrega sem tempo contado.

“Slow and easy”: o Homem tem de perceber que não é uma máquina, precisa de humanizar o seu ritmo de vida. Se me observar e seguir o meu lema, pode aprender muito…

As crianças brincam “Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol!” Nem sabem como isso é o prazer puro: saborear muito lentamente uma couve tenrinha com o sol a aquecer o meu corpinho e a minha concha e o bem-estar a tomar conta de mim. Tão docemente! É o prazer absoluto!

Melhor que isso é namorar com outro caracol: sou hermafrodita, mas acasalo 4 vezes por ano, para que me reproduza. Portanto, essas 4 vezes são muito desejadas. Fazemos muitos miminhos, sinto o seu odor, o seu gosto, prolongamos esse prazer devagar, devagarinho.

Deus dos caracóis: obrigado por me teres dado este dom que me permite tão bem apreciar todas as pequenas coisas do meu pequeno mundo.

O Homem adora-me e, como de costume, tudo o que adora, mata e devora. Eu e os meus semelhantes morremos muitas vezes a ferver em panelões: é o horror! Parece que somos deliciosos! Mas alguns comem-nos tão sofregamente que, mais uma vez, não desfrutam da melhor forma!

Mas há seres humanos que não nos molestam, antes pelo contrário, enaltecem as nossas qualidades na sua escrita, pintam-nos, fazem esculturas…

Até o Sr. Rafael Bordalo Pinheiro criou moldes que nos reproduzem em bela cerâmica. E agora estamos numa “Garden Party” no Jardim Bordalo Pinheiro no Museu da Cidade de Lisboa. Excelente ideia da Catarina Portas e projecto da Joana Vasconcelos.

Nestes dias de Verão lá estamos todos a celebrar a vida e a animar a natureza!



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sexta feira, dia 13, Nock, nock, é o azar!



-Nock, nock...

Abri sem sequer me preocupar em ver quem era.
E lá estava aquela figura, um esqueleto, com um capuz, parecia um esqueleto vaidoso.
Não dava para acreditar. Detesto esqueletos, não acredito no  azar. Não era nada fácil!

- Olá viva. Como estás? Apresento-me: eu sou o Azar! Tenho o maior dos prazeres em te visitar!
- Azaruxo, eu não acredito em ti nem um bocadinho e não tenho o menor dos prazeres nesta cena...
- Deve ser por isso que não me mandas entrar ou é apenas acanhamento?
- Claro que não entras, em minha casa não, só mesmo por cima do meu esqueleto, o que, por agora, não é o caso. Azar teu!
- Não penses que é por seres mal educada e não me convidares para entrar que eu não vou ensombrar a tua vida!
- Ensombra, ensombra, com este calor, a tua sombra até que pode dar jeito!
- Deves achar que tens piada e até fazes trocadilhos... Mantém esse sentido de humor quando eu começar a lançar o meu azarado feitiço sobre ti!
- É melhor mandares esse tal feitiço, que já me estás a fazer perder muito do meu precioso tempo. E eu tenho a sorte  à minha espera à janela!
- Não fales nessa mulher, que me dá azar!
- Pois é uma sorte que a sorte te dê azar. A mim a sorte só me dá coisas boas: sorte, alegria, amor, beleza, amizade, boa disposição, luz...
Curioso: com toda esta carga positiva o azar desintegrou-se num monte de pó. Fui à cozinha, trouxe a vassoura, varri o pó, apanhei com a pá e deitei no lixo. Que trabalho o azar dá!

Fechei a porta e fui tagarelar com a sorte à janela.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As fases da Lua






Ela é uma Lua Cheia de fases, de poses, de brincadeiras, de facetas. Esta gata é uma caixinha de surpresas, é um animal delicioso na conjugação entre a independência e a dependência. Pode ser arisca e meiguinha no segundo seguinte. Pode ser deliciosamente felina e assustadoramente canina. É, acima de tudo, encantadora e sempre à coca do que se passa: uma verdadeira cusca! Estou rendida: ela sabe seduzir!


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O segredo dos seus olhos




Quem tinha visto o filme recomendava-o, também sabia que tinha ganho o óscar para o melhor filme estrangeiro, mas não esperava tanto! Como se costuma dizer, encheu-me as medidas!
Um filme argentino, de pequeno orçamento e que resulta nesta delícia!

Embora seja um thriller, para mim é essencialmente um filme sobre o amor e sobre os paralelos entre duas histórias de amor. É feito de muitas camadas, que se vão revelando e mostrando o que estava por trás. Tudo está interligado, preciso é descobrir o fio que conduz, dá voltas e voltas...

Fala de um crime horrendo, da justiça que se procura e dificilmente se encontra, da vingança que se serve fria, da corrupção inerente à época da última ditadura argentina. Fala do amor e daquilo que nunca mudamos: a nossa paixão.

Neste thriller, as perseguições à moda de Hollywood são substituídas por uma entrada aérea num superlotado estádio de football, em que somos esmagados por esse ambiente único. Depois é percorrer os labirintícos corredores e casas de banho numa corrida alucinante.  O ritmo da narrrativa é envolvente, os diálogos e os silêncios inteligentemente doseados. Os protagonistas são brilhantes e a caracterização do seu envelhecimento através dos 25 anos que o filme cobre é perfeita. O segredo dos seus olhos, o significado dos olhares estão sempre a espreitar-nos, há que seguir a sua beleza, a poesia que encerram, as mensagens que transmitem.

E o final é soberbo, tinha de ser aquele para que tudo fosse perfeito.

Juan José Campanella é um nome a reter.

E este filme não passa por nós, fica em nós. Apaixonamo-nos pelo Amor, com aquela beleza, aquela autenticidade.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Velhas e maravilhosas Senhoras


Olhando estas árvores tão bem agarradas à mãe-terra, tão sabiamente anciãs, sentimos o quanto somos pequenos, insignificantes e passageiros de uma curta viagem. É deslumbrantemente belo e profundo...

Senti necessidade de parar, olhar, voltar a olhar, sentar-me, fotografar, olhar outra e outra vez. E levar estas velhas senhoras no meu pensamento. E elas levaram-me a pensar no tempo, na vida. Estes troncos, estas raízes, estas vidas tão longas! Por elas têm passado tantas pessoas que admiraram as várias fases do seu crescimento, tantas pessoas passarão ainda...

Estas árvores são seres vivos, vidas que se alimentam desta mesma terra-mãe, bebem como nós da mesma chuva, são abençoadas pelo mesmo sol que nos aquece, à noite descansam sob o mesmo firmamento estrelado!

Recebemos a sua sombra, a sua beleza e imponência, ficamos deslumbrados pela sua longevidade, são as nossas amigas, enriquecem os nossos jardins! Somos pequenas gotinhas de água no oceano da sua experiência!

Olhá-las é um mergulhar no passado, um encontrar o futuro, elas já lá estavam muito antes de nós, elas estarão lá muito para lá do que possamos imaginar. Estamos aqui e agora e veneramos estas velhas e maravilhosas senhoras, que, como bem sabemos, morrem de pé.

Minhas Senhoras, bem-hajam por existirem e nos maravilharem com a vossa abençoada e majestosa presença na nossa tão fugaz passagem por aqui.




sábado, 24 de julho de 2010

Sputnik, meu Amor - Haruki Murakami



Foi o meu primeiro encontro com Haruki Murakami e fiquei rendida.

A sua escrita é de uma simplicidade e de uma frescura que nos agarra e conduz pelas vidas das três deliciosas personagens. Este livro é um ensaio poético sobre o desejo, a solidão, o destino, a amizade, as relações da alma. É uma escrita que respira, muito introspectiva, que busca o eu mais profundo, aquele que quanto mais procuramos, mais nos escapa. O ritmo é muito bem marcado. Os diálogos são profundos. Nada é supérfluo.

"A percepção não passa da soma dos nossos mal-entendidos. No mundo em que vivemos, o que sabemos e o que não sabemos coexistem num estado de perfeita confusão, fatalmente ligados, como gémeos siameses".

Sente-se o fascínio deste japonês pelo ocidente nas referências aos vinhos, à música clássica, à Grécia. Esta mescla oriente/ocidente que percorre todo o romance é parte do seu encanto.

Sputnik começa por parecer um estranho título. Resulta de um mal-entendido entre as duas mulheres mal se conhecem: uma confunde beatnick com sputnik, que significa "companheiro de viagem" em russo. Faz, afinal, muito sentido: este livro é todo ele uma viagem, uma busca constante de um sentido para a vida, de um companheiro para a alma, de alguém para amar, de algo mais que está mesmo ali e sempre escapa. E esta viagem poética por três solidões que se cruzam e  se afastam, se fundem e se perdem é uma viagem em que nós também participamos. Nós viajamos por e com este livro, com estes três seres. Viajar é sempre mais belo que chegar. Daí a pena que sentimos quando acabamos esta fascinante viagem deste Sputnik. Não foi uma viagem espacial, mas foi uma viagem especial.

Haruki Murakami é a minha praia. Como adoro praia, voltarei a ele muito em breve.





domingo, 18 de julho de 2010

"O escritor fantasma" - Roman Polanski




Um trhiller espantoso! Roman Polanski, como grande mestre do suspense, tem aqui uma das suas obras de primeiríssima água.
O filme começa devagar, de uma forma mais ou menos banal e vai subindo, subindo, prendendo a nossa atenção e a determinada altura estamos completamente mergulhados na trama, à espera, sem saber de quê, nem como, nem quando. Estamos agarrados à cadeira, ao enredo. Nada é o que parece. Tudo e todos  encerram qualquer possibilidade. É um thriller moderno, mas é um clássico. Nem demais, nem de menos. Está na conta certa. Tal e qual o que qualquer filme deste género deveria provocar.
E aqui acontece mais: as personagens são aquelas, porque não poderiam ser outras: são perfeitas q.b. Ewan McGregor é o escritor-fantasma que daria verosimilhança àquele papel: tem tudo o que é preciso. Pierce Brosnan é perfeito como P.M., quando aparece enche o ecran. Olivia Williams, como mulher do P.M., é excelente neste  papel.
E a crítica política está lá, o dedo é colocado nas feridas, os envolvimentos subjacentes à política são bem explícitos.
Está lá tudo.
É um dos melhores filmes deste ano, dentro do género. A não perder, para quem gosta de cinema.
Polanski é um realizador maldito para os americanos e, depois deste filme, vai ganhar ainda mais inimigos na América e não só!


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Escrever não engorda...


Escrever é como comer, mas ao contrário.

Na nossa vida, a comida começa por ser uma necessidade essencial à nossa sobrevivência e ao nosso crescimento e, com o passar do tempo, vai-se tornando num prazer.

A escrita começa por ser um prazer e, com o passar do tempo, torna-se numa necessidade que nos ajuda a crescer e a viver com mais qualidade.

Em ambos os casos, a necessidade e o prazer andam de mãos dadas numa grande cumplicidade.

Mas escrever  tem uma grande vantagem: não engorda.

Até pode engordar, mas só se não se fizer ginástica, mental, claro!